27.10.05

O Bicho Homem III

Neste espaço a negro com letras a branco, que não é mais que o universo ampliado 100.000 vezes (recente descoberta feita pelo panteão nacional) conto hoje a história do bicho homem III. Este é conto mais afastado do nosso sistema solar, uma história sobre um homem do caraças, com uma cabeça do caraças a viver num universo do caraças.
No verão de 04, trabalhei 'lá na França' fechado numa quinta durante dois meses, a apanhar maçãs. O único contacto com seres humanos acontecia ao fim-de-semana quando ia às compras no LIDL da vila mais próxima. Na quinta havia mais empregados, mas todos eles eram bichos homens com grande potêncial a figurar no estrelato deste blog. Estes bichos homens de nobres costumes e de gostos exóticos tinham um jeito de socializar que nunca percebi bem. Todos os dias havia discussão sobre um assunto qualquer e terminava sempre numa aposta a dinheiro, a quantia era sempre o ordenado de um mês. Como pode ser isso possivel, 30 vezes muito dinheiro dá muito mais dinheiro.
É uma experiência com um deles que vos conto. Raposo é alcunha, é português, vive na Bragança profunda- digo mais alta- e deve ter uns 50 anos. É careca ao meio e tem cabelo comprido dum lado puxado ao máximo para o outro. Veste normalmente uns calções de corrida “UMBRO”, com um pente na baínha, pronto a disparar e calça uns de chinelos de mini-mercado. A sua experiencia de trabalho é internacional, França, Canadá e Bragança. Foi dono de um Porche, falava muito e mal e bebia q.b., a sua paixão é a caça. Tinha as ideias mais estúpidas e incríveis que já ouvi.
Quando lá cheguei, desfiz as malas e fui à cozinha no rés-do chão, e vi pela primeira vez o Raposo. Um aperto de mão e começou a falar para mim. De seguida foi a um canto da cozinha onde havia uma televisão velha que não funcionava, afastou-a da parede, olhou duas vezes lá para trás, meteu lá a mão e apanhou qualquer coisa. Chegou-se ao pé de mim abriu e a na palma da mão estavam dois dentes. E disse-me assim: 'estes dois dentes ficaram-me aqui do ano passado, este ano vou leva-los'. Eu olhava-lhe para a boca e confirmava o facto, faltavam-lhe mesmo dois dentes no lado esquerdo.
Chamavam-lhe Raposo porquê? Porque trabalhava na apanha da maçã 'lá na França' com um marroquino e para o chatear dizia-lhe que comia carne de porco:' je mange cochon!' Um dia sabe-se lá porquê disse-lhe: 'je mange rapose!' Ou seja, eu como raposa.
Grande bicho homem este, sempre a desafiar a lógica universal das palavras e questionar a velha gramática...



As suas teorias mais conhecidas são as seguintes:

- o Canadá é mais perto do céu;
- o vinho aberto desenvapora;
- os cds estragam a vista (segundo a bruxa que foi falar à rádio Toronto);
- o líquido da louça é inflamavél;
- estragou os dentes a lavá-los;
- os cigarros de enrolar têm de enxugar antes de serem fumados;

5 comentários:

João disse...

Será que o Raposo está a fazer o papel de 'Eva a tentar Adão' ou o de 'Bruxa má a tentar a Branca de Neve'?

Anónimo disse...

Belo texto! Queremos mais!

Joel disse...

nesta foto o que acho impressionante é o poder da maçã, domina completamento o mestre.

Pedro disse...

Alturas houve em que fotografar um homem nu, que ainda por cima agarra uma maça como se fosse a caveira naquela peça do Shakespeare, era algo muito estranho…

Xavier disse...

Maravilhoso este bicho homem. muito estralho a parte de guardar partes do corpo para a proxima epoca. Talvez nao percisa-se daqueles dentes naquela altura. Um sinal de eficiencia.