14.10.05

Crimes Capilares III

Não é preciso encomendar nenhum estudo de mercado, muito menos esperar que inegáveis provas científicas brotem de tubos de ensaio e bicos de Bunsen. É mais que sabido que, para, no louco mundo dos eighties, se destacar pela exuberância capilar, era preciso roçar o paranormal, o sobrenatural, o extraterrestre, o absurdo absoluto, enfim, ostentar o ‘homem elefante’ dos penteados. Mike Score (um gajo com um nome destes, se jogasse à bola, fazia as delícias dos gajos que fazem as manchetes dos jornais desportivos, sempre ávidos de trocadilhos fáceis e parvos) era o vocalista dos ‘A Flock of Seagulls’, um dos poucos nomes de banda que também encaixa perfeitamente como resposta à pergunta ‘eh pá, quem é que me cagou o carro todo?’. Em inglês, claro. Sempre que penso em gaivotas, lembro-me da Mafalda Veiga. Não faço ideia porquê. Vai ser das primeiras coisas que vou tentar saber quando começar a ter terapia.

Apenas uma das músicas dos ‘A Flock of Seagulls’ se tornou famosa. Depois, caíram na há muito anunciada decadência. Ficaram os ‘gajos daquela música’. Os ‘gajos daquela música’ são as bandas ou os artistas que se vêem ultrapassados, em termos de popularidade, por uma das suas cantigas, e que depois, em concertos, são coagidos pela audiência a tocá-la vezes sem conta. Normalmente, acabam por ficar paranóicos e passam a andar pelas ruas de sobretudo, óculos escuros e um incontável número de tiques nervosos – que foi como eu vi o Fernando Girão, a murmurar o seu único hit, o ‘Aqui já não dá’. De entre os muitos ‘gajos daquela música’ que para aí há, mais dois exemplos, um nacional e outro internacional: o Mário Mata é o gajo do ‘Não há nada p’ra ninguém’ e os Europe são os gajos do ‘Final Countdown’. Tão simples como isto. Mas os ‘A Flock of Seagulls’, além de serem os gajos do ‘I ran (so far away)’, são também os ‘gajos que tinham um vocalista que tinha aquele penteado todo coiso, néra?’.


E é merecido que assim seja. O que o Mike Score fez com as suas grenhas é digno de figurar perpetuamente nos anais do mau gosto. Conseguiu combinar vários tipos de penteado num só. O chamado ‘risco ao lado desde a orelha’, há muito a opção do Marante, está presente e faz-se notar. A novidade reside na opção por dois riscos ‘ao lado desde a orelha’, abarcando-se, assim, quer o lado direito, quer o lado esquerdo, e formando uma espécie de acolhedor ninho para onde convergem dois dos opostos mais conhecidos da humanidade. Depois uma franja. Bem grande e ‘em cone’, afunilando-se para junto do nariz e boca. Uma bricolage capilar, e de receita até bastante simples. Erguido com muita laca, força de vontade q.b., nenhuma noção do ridículo e um, indispensável e sempre presente, sentido estético em coma profundo.

9 comentários:

João disse...

É bom saber que Deus não dorme (a não ser que seja como os padeiros e durma de dia) e que a justiça universal funciona. O crime capilar deste senhor foi castigado com a pior pena possível em termos de cabelo, pior mesmo do que a pastilha elástica, a calvice.

Telmo disse...

Andou a experimentar lacas e depois lixou-se.

Tiago disse...

Estou ansioso por ver os meus colegas fixes do ciclo que punham board wax no cabelo. miahahah!

João disse...

Vais ficar extremamente contente quando descobrires que eles ficaram, por estranho que isto possa parecer ao comum dos mortais,louros.

Anónimo disse...

O "Aqui já não dá" é do saudoso Tó Leal.

Pedro disse...

Pois, mas a versão do Fernando Girão é mesmo dele... é uma chatice do caraças...

Anónimo disse...

Keep up the good work »

Anónimo disse...

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