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26.12.06

Mitos Infantis IV



Ontem não comi a sopa toda. Não comi e pronto! E sabem que mais? Não me aconteceu absolutamente nada. Nada! Não veio um polícia buscar-me, não me cresceram pelos nas mãos e nem fiquei cego. Não só não me aconteceu nada disso, como ainda tive direito à sobremesa. Repeti e tudo. Várias vezes, até.

“E então?” – perguntam em uníssono os meus estimados leitores, ou pelo menos os que conseguiram ler isto tudo até aqui sem ficarem à rasca da vista, ou os que sabem que não vale a pena tentar arranjar ocupação melhor do que esta de ler blogs e isso. Pois bem, é que diz – o povo e gente assim dessa – que se não comermos a sopa toda, que nos acontecem calamidades trágicas, tragédias catastróficas e até mesmo catástrofes calamitosas, como aquelas que descrevi anteriormente ali para os lados do primeiro parágrafo.

A mais famosa das consequências de não comer a sopa até ao fim, e que ainda não tive oportunidade de referir, (aliás, até tive, mas quis criar suspense, ou “suspende” que é como o processador de texto que utilizo me sugere que escreva) é então vir o “Velho do Saco” e levar quem não comeu a sopa toda.

Mas ele ontem não veio e não me levou com ele. E agora pergunto: “Porquê isto?” Ora, sucede-se que ontem era Natal e o fulano de idade avançada que se encontra sempre na posse de um saco andava ocupado com outras coisas. Vamos mas é lá chamar as coisas pelo nome: ele andava ocupado com outras “ocupações”. Pois é, o “Velho do Saco” andava sim a fazer de Pai Natal. Não como muitos malandros que só nesta quadra é que se lembram de fazer alguma coisa que não procrastinar no sofá, e que vestem uma fatiota, tiram as barbas de molho, metem uma barba falsa e badalam uma sineta nas ruas da baixa de uma qualquer cidade da Beira Alta, por exemplo. O “Velho do Saco” é na verdade, verdadinha, o verdadeiro “Pai Natal”. É verídico sim senhores, estas duas figuras míticas são apenas e somente, a mesma e uma só pessoa.

É por isso que não nos acontece nada se não comermos a sopa no Natal, que até, coincidentemente, nem faz parte da ementa da Consoada. O “Velho do Saco” cessa assim as suas funções habituais para andar a distribuir presentes bonitos às crianças que se portaram bem, e um pedaço de carvão às que se portaram mal. E isso de nos portarmos bem é mesmo o quê? Lá está: comer a sopa toda. E quem é que se encontra mais habilitado do que o “Velho do Saco” para saber quem é que se portou bem? As coincidências não se ficam por aqui, senão reparem: tanto o “Pai Natal” e o “Velho do Saco” são velhos e têm sacos. É a isto que nós chamamos em Economia, “economia de recursos”, pois utilizam-se determinadas capacidades, neste caso ser velho e andar com um saco, para desempenhar diferentes funções e aumentar a produtividade da coisa. Até porque não faria sentido nenhum estar a descontar para a segurança social e a ter outros encargos assim género só para ter um “Pai Natal” no activo um ou dois dias por ano. Deus, o gestor do Universo, sabe-a toda.

E o menino Jesus no meio disto tudo? Pois bem, todos nós sabemos que isto de celebrar o Natal é a forma que temos de dizer “Feliz Aniversário” ao Jesus. E como é o Seu aniversário, neste dia ele é o bebé, e tem de ser feita a Sua vontade. Tanto na Terra como no Céu. Antes era Ele que punha as prendas no sapatinho, mas fartou-se de estar sempre de serviço no dia de anos, e pediu ao Seu Pai para arranjar alguém para essa tarefa. Assim, o Seu Pai mandou um dos Seus empregados, o “Velho do Saco”, encarregar-se disso. Deu-lhe uma farda e tudo, para demonstrar que aquilo era uma tarefa mesmo importante e o velho não reclamar. Porque se há coisa que os velhos adoram mais do que reclamar, são fardas como deve ser e farpelas assim das jeitosas.


Outros Mitos:
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Mitos Infantis I

20.5.06

Mitos Infantis III

Às duas espécies de mitos infantis previamente identificadas (aqui e aqui), pode-se acrescentar uma terceira espécie: a espécie “ainda não tenho os neurónios todos por isso estou sempre a ser ludibriado”. Todos nós fomos vítimas desta espécie.

Quando entrei para a primeira classe, disseram-me que havia um miúdo morto numa poça de água no recreio. E eu acreditei. Durante uma semana inteira. Acho que só comecei a desconfiar quando passou a época das chuvas e a poça secou.

Porque não desconfiei antes já que os professores da escola não tomavam medidas e nem sequer comentavam uma situação desta gravidade? É preciso ver que ir para a 1ª classe era como entrar numa terra sem lei em que os miúdos mais velhos nos podiam bater quando quisessem e, dizia-se, havia sempre uma dezena de ciganos à espera que passássemos os portões da escola para nos roubarem o relógio. Era cada pequenino por si! Por isso é que estávamos sempre a correr de um lado para o outro sem motivo aparente. Estávamos a praticar a nossa velocidade.

No entanto, tudo era esquecido quando acabava o recreio e entrávamos dentro da sala de aula; solo sagrado onde voltávamos a acreditar piamente na professora.A Sra. Professora dizia-nos para passarmos horas intermináveis a picotar um papel em cima de uma esponja e nós, maravilhados, cumpríamos a tarefa de bom grado. Fazia-nos esquecer a manhã exaustiva de volta das contas de somar. “Quando for grande eu quero ser picotador” diziam alguns alunos cheios de orgulho. “Sinto que a minha formação como pessoa é mais completa desde que iniciámos as aulas de picotagem” diziam outros (talvez).

E, olhando para trás, posso dizer com segurança que os meus companheiros que mais subiram na vida foram os que, em vez de irem para o recreio no intervalo, pediam à professora para continuarem na sala a praticar a arte cheia de significado que é a picotagem. Hoje, alguns são mesmo professores primários.


"Já temos os dentes todos. Agora estamos à espera que nos nasçam os neurónios".

18.6.05

Mitos Infantis

Aqui há uns bons anos atrás, Mikhail Gorbachev era uma figura envolta numa aura de mistério. Esta era a opinião generalizada, sobretudo entre aquela faixa da população que ainda tinha uma idade só com um dígito e uma percentagem brutal de dentes de leite. É que o ex-presidente da União Soviética aparecia bastante na televisão e, como a curiosidade dos putos não obedece a lógicas de qualquer espécie, a criançada começou-se a interrogar sobre o que raio seria aquela mancha que enfeitava a cachola do Mikhail e cuja cor se estabelecia algures entre o escarlate e a sépia, aproximando-se, até, mais desta última. Lembro-me perfeitamente de, entre tigelas de Cerelac, discutir isto com o João. E, como se sabe, a eloquência e argumentos infantis, seguidos de uma bela birra se não nos dessem razão, sempre deu azo a conclusões muito válidas. Bem, dizia ele, do alto da sabedoria própria de quem tinha acabado de fazer e provar uns bolos de lama, que a mancha do senhor era uma tatuagem do mapa da Rússia e que todos os presidentes de países tinham que ter uma da respectiva nação. Eu, apesar de confrontado com tamanha sapiência, sobretudo geográfica, discordava. Na minha óptica, por sua vez dotada de um apurado conhecimento em medicina, o promotor da Perestroika tinha, há muito tempo atrás, levado um tiro na cabeça e não tinha ido ao hospital. E, como ele deixou aquilo andar, o sangue tinha secado e deixado tão característica marca. Esgrimimos argumentos durante algum tempo, mas depois fomos ver quem é que conseguia correr mais depressa com um balde na cabeça e a discussão sobre política internacional acabou por ficar por ali.